SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE

CNPJ/MF nº 60.517.984/0001-04
Fundação: 25 de janeiro de 1930
Apelidos: O Mais Querido, Clube da Fé, SPFC, Tricolor Paulista.
Esquadrão de Aço (30-35), Tigres da Floresta (30-35), Rolo Compressor (38-39, 43-49), Tricolor do Canindé (44-56), Rei da Brasilidade (50-60), Tricolor do Morumbi (60-), Máquina Tricolor (80/81), Tricolaço (80/81), Menudos do Morumbi (85-89), Máquina Mortífera (92/93), Expressinho Tricolor (94), Time de Guerreiros (2005), Soberano (2008), Jason (08-09).
Mascote: São Paulo, o santo.
Lema: Pro São Paulo FC Fiant Eximia (Em prol do São Paulo FC façam o melhor).
Endereço: Pr. Roberto Gomes Pedrosa, 1. Morumbi; São Paulo - SP. CEP: 05653-070.
Site Oficial: www.saopaulofc.net
E-mail: site@saopaulofc.net
Telefone: (55-0xx11) 3749-8000. Fax: 3742-7272.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Camisa #ForçaChape


No dia 11 de dezembro de 2016, enlutado pelo trágico acidente com a delegação da Chapecoense, vitimada com a queda do avião que a transportava para a Colômbia, o São Paulo atuou contra o Santa Cruz, na última rodada do Campeonato Brasileiro, com o uniforme todo preto. 

Além do escudo do time catarinense, a camisa levou mensagens de apoio aos familiares dos 71 falecidos na ocorrência e a hashtag #ForçaChape, completada com a palavra "sempre", na barra. 

Também foram homenageados os atletas da Chapecoense com os nomes deles presentes no lugar dos nomes dos jogadores são-paulinos, conforme a relação abaixo: 

Titulares
1. Denis: Danilo
2. Bruno: Caramelo
27. Maicon: Felipe Machado
3. Rodrigo Caio: Marcelo
18. Buffarini: Gimenez
15. João Schmidt: Josimar
23. Thiago Mendes: Sergio Manoel
13. Cueva: Cleber Santana
14. David Neres: Ananias
17. Gilberto: Tiaguinho
9. Chavez: Bruno Rangel

Substitutos
24. Léo: Follman
31. Luiz Araújo: Ailton Canela
37. Wellington: Gil

Reservas
4. Lucão: Dener Assunção
5. Lugano: William Tiego
8. Daniel: Arthur Maia
16. Douglas: Neto
19. Lyanco: Neto
20. Jean Carlos: Kempes
25. Hudson: Mateus Biteco
28. Matheus Reis: Alan Ruschel
29. Robson: Lucas Gomes


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Jogadores com mais de uma passagem pelo São Paulo

Os dados aqui apresentados levam em conta como passagem somente períodos em que os atletas tenham sido totalmente desligados do clube anteriormente (qualquer tipo de vínculo) e que tenham passado por outra equipe depois, antes de retornar (excluindo, assim, aqueles que vieram por empréstimo mas que foram contratados na sequência imediata). 

Do mesmo modo, desta maneira não são consideradas como passagens distintas os períodos de empréstimos de jogadores do Tricolor a outros times (seria praticamente impossível de obter uma relação desse tipo, com esse critério, para os mais de 1400 nomes que já vestiram a camisa são-paulina).

Há de se notar que nem sempre foi comum o retorno de um atleta ao clube depois dele ter deixado a equipe. São duas as principais fases em que um grupo considerável de jogadores voltavam ao time: os anos 30/40 e da década de 90 em diante. 

A primeira fase é bem explicada pelo fim da primeira fase da história do Tricolor, em 1935, e o recomeço, no ano seguinte. De 1936 até 1942, nada menos que 18 jogadores que conheceram a Chácara da Floresta retornaram ao São Paulo. 

A partir da volta de Müller, em 1991, esses regressos voltaram a ser frequentes. Antes, de 1942 a 1990 (48 anos), somente cinco atletas tiveram duas passagens pelo Tricolor (sendo que uma, a de Paraná, em 1982, nem foi uma segunda passagem de fato e mais um jogo de despedida tardio).

Dos anos 90 para cá, 19 atletas voltaram ao Morumbi (o número pode chegar a 23, pois não consegui determinar oficialmente se Válber, Axel, Rogério Pinheiro e Adriano tiveram contratos encerrados e foram recontratados ou se estavam emprestados). 

Enfim, vamos as listas. As datas são referentes a estreias em cada período e o último jogo em geral do atleta. 

DUAS PASSAGENS

JOGADOR (NOME COMPLETO) P.     1ª PASS.  2ª PASS.  Último J
Luizinho (Luiz Mesquita de Oliveira) AT 16/03/30 07/03/42 03/06/47
Araken (A. Abraham Patusca da Silveira) AT 13/05/30 27/11/38 17/08/39
Armandinho (Armando dos Santos) AT 10/08/30 09/10/38 06/10/40
Junqueirinha (Fausto de Andrade Junqueira) AT 21/12/30 09/05/37 06/04/38
Orozimbo (Orozimbo dos Santos) LM 29/05/32 03/03/40 14/12/41
Lysandro (Lysandro Bartholo) LM 18/12/32 25/08/38 13/09/42
Zarzur (Assad Alberto Zarzur) LM 05/01/33 21/04/43 29/06/47
Ferreira (Alfredo Ferreira Junior) LM 12/03/33 25/01/36 24/05/36
Iracino (Iracino Vieira de Souza) DF 12/03/33 04/09/38 30/12/41
Raffa (Raphael Rodrigues dos Santos) LM 12/03/33 18/01/39 18/01/39
Waldemar de Brito (Waldemar de Brito) AT 12/03/33 21/12/41 02/05/43
Agostinho (Agostinho Santos) DF 28/05/33 25/08/38 04/05/44
Vicente (Vicente Arnoni) AT 29/10/33 03/10/36 25/01/40
Ponzoníbio (Carlos Jose Ponziníbio) LM 05/08/34 09/10/38 11/05/40
Paulo (Paulo Bertoletti) AT 17/03/35 25/08/38 04/01/42
King (Nivacir Innocêncio Fernandes) GL 25/01/36 11/06/39 13/07/47
Eugenio Chemp (Eugenio Chemp) AT 29/11/36 18/05/41 31/07/41
Piolim (Laurindo Furlani) LM 15/11/37 18/04/42 03/06/47
Hélio Silveira (Hélio Augusto Silveira) LM 05/12/43 01/05/50 01/05/50
Bibe (Olímpio Gabriel) MC 25/02/51 05/04/59 29/06/60
Guimarães (Custódio Alves G. Filho) AT 10/02/52 20/04/58 28/08/59
Vilásio (Vilásio Léllis) DF 30/03/60 02/02/64 27/02/64
Paraná (Ademir de Barros) AT 07/03/65 20/03/82 20/03/82
Silas (Paulo Silas do Prado Pereira) MC 17/05/84 11/10/97 09/12/97
Pintado (Luís Carlos de Oliveira Preto) VL 21/04/85 06/03/92 10/07/93
Válber (Válber Roel de Oliveira) ZG 29/08/92 15/06/96 05/06/97
Toninho Cerezo (Antônio Carlos Cerezo) MC 27/09/92 05/07/95 08/11/95
Axel (Axel Rodrigues de Arruda) VL 30/01/94 19/02/00 25/11/00
Rogério Pinheiro (Rogério P. dos Santos) ZG 01/02/95 23/01/97 03/11/01
Adriano (Adriano Gerlin da Silva) MC 15/06/96 03/11/01 09/03/03
Marcelinho Paraíba (Marcelo dos Santos) AT 05/07/97 17/01/10 16/02/11
Kaká (Ricardo Izecson dos Santos Leite) MC 01/02/01 27/07/14 30/11/14
Diego Lugano (Diego Alfredo L. Moreno) ZG 11/05/03 21/02/16  - 
Cicinho (Cícero João de Cezare) LD 21/01/04 10/02/10 06/06/10
Rodrigo (Rodrigo Baldasso da Costa) ZG 01/02/04 03/08/08 29/11/09
Hernanes (Anderson H. de C. Viana Lima) MC 02/06/04 29/07/17 05/08/10
Denílson (Denílson Pereira Neves) VL 02/07/05 23/07/11 06/06/15
Ricardo Oliveira (Ricardo de Oliveira) AT 14/05/06 28/07/10 07/11/10
Alex Silva (Alex Sandro da Silva) ZG 12/07/06 28/02/10 12/05/11
Ilsinho (Ilson Pereira Dias Junior) LD 15/07/06 08/09/10 13/08/11
Breno (Breno Vinícius Borges) ZG 28/03/07 09/08/15  - 
Cícero (Cícero Santos) MC 17/07/11 19/01/17  - 

*Em vermelho, situações não confirmadas.

TRÊS PASSAGENS

JOGADOR (NOME COMPLETO) P. 1ª PASS. 2ª PASS. 3ª PASS. Último J
Müller (L. Antônio Corrêa da Costa) AT 15/11/84 14/04/91 15/06/96 24/11/96
Raí (Raí Souza Vieira de Oliveira) MC 18/10/87 25/01/98 10/05/98 22/07/00
Leonardo (L. Nascimento de Araújo) LE 11/08/90 22/09/93 25/07/01 05/12/01
Luís Fabiano (L. Fabiano Clemente) AT 18/02/01 07/07/02 02/10/11 28/11/15

São notórias as três passagens de Müller e Leonardo, mas convém explicar um pouco o que se deu com Raí e Luís Fabiano.

Raí foi transferido para o París Saint-Germain, em 1993 e lá permaneceu até ser recontratado pelo Tricolor em 1998. Contudo, amistosamente disputou uma partida pelo São Paulo em janeiro daquele ano, e depois voltou à França para os seis meses finais de contrato com o clube de Paris. 

Luis Fabiano foi, inicialmente, contratado por empréstimo junto ao Rennes, da França, e permaneceu no Tricolor por toda a temporada de 2001. No primeiro semestre do ano seguinte teve que retornar ao time europeu e somente foi recontratado pelo Tricolor em julho de 2002. O centroavante teve uma outra janela no Velho Continente após deixar o Morumbi em 2004 e, como é de conhecimento geral, assumiu novo vínculo com o São Paulo em março de 2011 - vindo a reestrear bem posteriormente, em outubro.


domingo, 17 de setembro de 2017

Arre, égua Sampaulina

No mesmo dia em que o Tricolor conquistou o sexto Campeonato Paulista da história do clube, horas antes, uma égua estreou no circuito de turfe paulistano vencendo o páreo. O nome dela? Sampaulina.

Sampaulina foi uma égua castanha, gaúcha, descendente de Alvis e Sampa e que, naquele dia 20 de novembro de 1949, tinha cinco anos de vida. Era posse de Justino Barbeta, mas treinada por João de Castro Godoy e conduzida pela jóquei A. Lucca. 

Naquele primeiro páreo, de 1.300 metros, do Prêmio da Primavera do "Prado de Pinheiros", como era chamado o Jóquei Clube, na época, a égua Sampaulina superou a segunda colocada, Dona Boa, por meio corpo de vantagem, correndo o percurso em 81 segundos e 9 décimos (se entendi bem o significado da parada).

O resultado final do páreo:

1. Sampaulina
2. Dona Boa
3. Lácio
4. Jubiloso
5. Moldura
6. Polvorim

O cartum, abaixo, brinca com o fato do Santo Paulo (talvez ligeiramente alcoolizado) estar comemorando a vitória da égua, e não o título no futebol.

Jornal O Esporte

A coincidência foi tão peculiar que, nos dias seguintes, a imprensa arranjou um encontro bem especial.

Jornal O Esporte

Pena que nada auspicioso. O tricampeonato, ao menos para Leônidas e o Tricolor, não veio.

O texto do jornal deixa a entender que a égua competia por uma equipe chamada Stud Tricolor. Uma rápida pesquisa revelou que a agremiação turfística existiu, ao menos, até 1988. Contudo, nada me apontou que tenha existido alguma relação oficial dela com o São Paulo Futebol Clube.

Talvez o proprietário fosse simplesmente são-paulino.





sábado, 16 de setembro de 2017

O Canindé, a Associação Alemã de Esportes e algumas lendas

Revista Arakan / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

Para muitos são-paulinos ainda é estranho imaginar que o Tricolor nem sempre foi do Morumbi, mas que por mais de uma década o foi do Canindé (como da Moóca e, bem antes, também da Chácara da Floresta). A história do São Paulo com o bairro que atualmente abriga o estádio da Portuguesa começa em 1942, primeiramente com o clube assumindo o aluguel da propriedade, depois, em 1944, comprando o terreno, perpassando a incorporação de uma agremiação a qual, em tempos recentes, muitas calúnias foram associadas: a Associação Alemã de Esportes; além de algumas lendas...

Por tudo isso, o texto é longo e cheio de detalhes. 


O Canindé

Antes da retificação do Rio Tietê - um projeto que existia desde o final do século XIX - e a construção das avenidas marginais, nos anos 50, a região dos bairros do Canindé, Pari, Bom Retiro e Santana abrigava várzeas do leito do rio, que, a depender das estações e das chuvas, serpenteavam mais perto ou mais longe dos núcleos urbanos, conforme as cheias e vazantes.

Esses locais bucólicos eram, por todas as características, um berçário propício ao nascimento de associações campestres e esportivas. Clubes como Espéria, Tietê, AA São Paulo, AA das Palmeiras, cresceram e se desenvolveram (muitos já morreram também, como o próprio rio). Mesmo o São Paulo Futebol Clube, na Chácara da Floresta, habitou terras semelhantes.

Mapa de São Paulo em 1943. Em branco, a Chácara da Floresta; vermelho: o Canindé / The São Paulo Tramway Light & Power Co. Ltd, 1943

Enquanto os são-paulinos viam craques como Friedenreich, Luizinho e Araken marcar muitos gols nas redes da Chácara da Floresta, o Tricolor tinha como vizinhos imediatos o Clube de Regatas Tietê (ao nordeste), Associação Atlética São Bento (ao sul, onde entre 1917 e 1926 o Corinthians foi sediado) e os rios Tietê (ao norte) e Tamanduateí (a leste). 

A Oeste, do outro lado da Praça de Esportes e da atual Avenida Tiradentes, a Associação Atlética São Paulo (ainda existente) detinha os terrenos que avançavam, para leste, até a várzea do Canindé e a esporádica (dependia das cheias) Ilha dos Amores. Mas próximo a esse clube, encravado junto ao rio, encontrava-se o Turnerschaft 1890, agremiação de colonos alemães.

Na sequência, sempre em direção ao sol nascente, surgia outro clube germânico, o Schwimm Club Stern, e que por sua vez era fronteiriço à Sociedade Allemã de Sportes Aquáticos - este último, já localizado na várzea do Canindé.

Essa era a geografia esportiva da margem sul do Rio Tietê no início dos anos 30.  


Dois clubes irmãos e rivais se unem

O primeiro clube a surgir no setor oriental da banda sul do Rio Tietê foi justamente o Clube de Regatas Tietê, em 6 de junho de 1907. Ele ocupava parte da área da atual Associação Atlética São Paulo, então denominada Chácara Couto de Magalhães (ex-presidente de província). 

Com o fim do Clube de Regatas São Paulo, que detinha a Chácara da Floresta (setor ocidental), em novembro de 1913 e a consequente mudança do CR Tietê para aquela paragem, a AA São Paulo, fundada em 26 de julho de 1914, passou a utilizar a área ex-tieteana (a partir de 1915) que usufrui até hoje.

Cinco anos depois, em 1919, nasceu mais uma entidade naqueles campos, já defronte ao Canindé (atualmente perto das alça de acesso da Av. Marginal para Av. Cruzeiro do Sul): o Schwimm Club Stern. Como o nome bem demonstra, era uma agremiação de imigrantes alemães. Desde a criação, contudo, também era conhecido como Clube Estrela de Natação. 

Escudo quando Clube Estrela de Natação. Arte: Michael Serra / spfcpedia.com.br. Foto: Nicolini, 2001

Medalhas do Schwimm Club Stern / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

Algum tempo depois - ainda não encontrei registros exatos de quando - uma ala dissidente do próprio Estrela decidiu fundar um novo clube: a Sociedade Allemã de Sportes Aquáticos (também desconheço se possuía uma nomenclatura na língua teutônica). O local que a entidade recém-criada escolheu para habitar? O Canindé.

A Sociedade Allemã de Sportes Aquáticos firmou um contrato de aluguel para o uso do terreno com Antônio Vannucci, então proprietário de uma grande parte do bairro. O convívio dos dois clubes da região, apesar da rivalidade natural, foi sadio. Em verdade, proveitoso a ambos.

Taça S. A. E. Aquáticos / Memorial do São Paulo Futebol Clube

O Estrela chegou a ser o terceiro principal time de natação da Capital - com atuações destacadas na Travessia de São Paulo a Nado e revelando nomes como Maria Lenk e Guilherme Schall (originalmente Wilhelm Schall, que também nadou e jogou pólo-aquático pelo Tricolor nos tempos da Floresta). Em termos de competitividade, a associação somente ficava atrás de Espéria e Tietê. E a SASA, por vezes SAEA, também obtinha louros.  

Com o avanço da poluição no rio Tietê e o surgimento de piscinas de água tratada para competições (a vizinha AA São Paulo inaugurou uma em 1929), ambas as entidades - que não tinham como fazer um investimento desse porte - foram perdendo atletas e espaço no cenário esportivo. 


O Deutscher Sport Club

Em meio a crise, a solução encontrada pelo Clube Estrela de Natação e pela Sociedade Allemã de Sportes Aquáticos foi a união. A fusão foi acertada no final de maio de 1932 e a data de fundação do novo clube estabelecido firmada em 1º de junho daquele ano. O nome de batismo? Deutscher Sport Club, mas o nome fantasia que ficou conhecido, mais comum para a nossa língua, foi Associação Alemã de Esportes - E sim, desde o primeiro dia essa nomenclatura já era utilizada.

Arte: Michael Serra / spfcpedia.com.br

Conforme o último contrato de locação de uso do Canindé (registrado em 4 de maio de 1932 no livro nº 4 do Registro Integral do Cartório do Dr. Arruda) entre Antônio Vannucci e a SASA, o artigo 14º estabelecia que: 
"Em caso de fusão dessa sociedade locatária com outra, ou mesmo de mudança ou alteração da denominação por que é atualmente conhecida (Sociedade Allemã de Sports Aquáticos) perdurará toda a responsabilidade jurídica da locatária e na forma de seus estatutos, devendo porém qualquer fusão ou substituição, constar de aditamento a este contrato".
Tal acerto seria válido por 20 anos a partir da data de assinatura. Desta maneira, a AAE nasceu canindeense. Naquela região o clube alemão se firmou como potência não somente natação ou no atletismo, como os predecessores, mas também no handebol. O Deutscher foi campeão da "Liga Alemã" (campeonato que deu origem ao Campeonato Paulista da modalidade) em 1933 e 1939, além de vice-campeão em 1935, concorrendo contra os gigantes Sport Club Germânia, Deutscher Turnverein e Deutsch Turnerschaft von 1890.

Já o local que o Estrela utilizava foi repassado, depois da fusão, à Associação Atlética São Paulo (Correio de S. Paulo, 31 de outubro de 1932). 


A Guerra

A situação dos imigrantes no país era sensível, principalmente depois do golpe de 1937, o golpe institucional de Getúlio Vargas que "inaugurou" o Estado Novo, nacionalista e autoritário. No ano seguinte, o presidente promulgou várias leis que regiam desde a entrada de estrangeiros, processos de naturalização e até impedia atividade política, ou seja: associar-se a outros se valendo um ideal, simbolo ou língua estrangeira (Decreto-Lei nº 383, de 18 de abril de 1938).
Art. 2º É-lhes vedado especialmente:
     1 - Organizar, criar ou manter sociedades, fundações, companhias, clubes e quaisquer estabelecimentos de carater político, ainda que tenham por fim exclusivo a propaganda ou difusão, entre os seus compatriotas, de idéias, programas ou normas de ação de partidos políticos do país de origem. A mesma proibição estende-se ao funcionamento de sucursais e filiais, ou de delegados, prepostos, representantes e agentes de sociedades, fundações, companhias, clubes e quaisquer estabelecimentos dessa natureza que tenham no estrangeiro a sua sede principal ou a sua direção.
Um clube, esportivo ou não, pode ser uma associação política, nesse entendimento. Cabe, contudo dizer, que o mesmo decreto garantia o direito de livre-associação, desde que respeitadas as ressalvas citadas acima e outras abordadas na dita lei. 
Art. 3º: É lícito aos estrangeiros associarem-se para fins culturais, beneficentes ou de assistência, filiarem-se a clubes e quaisquer outros estabelecimentos com o mesmo objeto, bem assim reunirem-se para comemorar suas datas nacionais ou acontecimentos de significação patriótica.
No princípio, essa medida não foi pregada a ferro e fogo. No começo, alguns clubes com nomenclaturas em língua estrangeira foram nacionalizando os nomes e estatutos. Com o passar o tempo, o mesmo foi ocorrendo com entidades as quais o nome meramente fazia alguma referência ao estrangeiro. Outras, bem apadrinhadas, talvez, só tiveram o nome alterado depois do final da Guerra (é o caso do São Paulo Railway, agora Nacional Atlético Clube).

Alguns clubes paulistas que mudaram de nome: 
Sport Club Germânia - Esporte Clube Pinheiros
Deutscher Turnverein - Associação de Cultura Física 1888
Deutsch Turnerschaft 1890 - Clube Ginástico Paulista
Club Esperia - Associação Desportiva Floresta
Österreichischer Verein Donau - Sociedade Danúbio
Schwimm Club Stern - Clube Estrela de Natação
Deutscher Sport Club - Associação Alemã de Esportes
Società Sportiva Palestra Itália - Sociedade Esportiva Palestra de São Paulo
Deutscher Segel-Club - Yacht Club de Santo Amaro
Sport Club Syrio - Esporte Clube Sírio
São Paulo Railway Athletic Club - Nacional Atlético Clube
Turn-Un Sportverein von 1909 - Clube Ginástico e Esportivo de 1909

O principal ponto que a lei decretava, contudo, era que as associações se denominassem brasileiras ou estrangeiras (e que brasileiros não poderiam tomar parte das declaradas externas). 

Com o avançar da Segunda Guerra Mundial, eclodida no dia 1º de setembro de 1939, a situação dos imigrantes, que já era uma questão complexa, foi se agravando mais ainda. Uma escalada de eventos, abaixo citados, levou a Diretoria de Esportes do Estado de São Paulo - órgão criado a partir da regulamentação do Conselho Nacional de Desportos (Decreto-Lei nº 3.199 de abril de 1941) - a adotar uma postura mais rígida no controle dos clubes obrigatoriamente afiliados. 

- Ataque da Luftwaffe ao navio Taubaté (uma pessoa morreu e 13 ficaram feridas em março de 1941);
- Rompimento de relações diplomáticas com os países do Eixo (28 de janeiro de 1942);
- Afundamento de navios mercantes nacionais por submarinos do Eixo (fevereiro/agosto de 1942, mais de 600 óbitos);
- Decreto do presidente Getúlio Vargas de possível confisco de bens de alemães e italianos como indenização pelas mortes e prejuízos financeiros (março de 1942);
- Adesão do Brasil aos Aliados, com declaração formal de guerra (agosto de 1942);

Mosaico da torcida são-paulina no Pacaembu com as bandeiras das nações aliadas / Revista Arakan - Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

Foi nesse cenário de caos crescente que os dirigentes do Deutscher Sport Club foram convocados por Sílvio de Magalhães Padilha, diretor da DEESP, a compareceram à sede da entidade, no dia 31 de janeiro de 1942 (Correio Paulistano), para tratar da situação dessa entidade (de como ocorreria o processo de nacionalização - se declararia a si mesma como sociedade brasileira, ou estrangeira).


Processos de nacionalização

Não entrarei no mérito da moral, nem legal, da expulsão de membros por afiliações partidárias, mesmo em períodos de guerra, mas é tão certo que havia partidários nazistas em clubes de imigrantes alemães e fascistas em clubes de imigrantes italianos quanto é certo que também havia aqueles que não partilhavam dessas ideologias - Antes do começo da Guerra, em qualquer pesquisa em jornais da época, é possível vê-los transitando e professando essas ideologias em tais associações.

Uma lembrança destacada ocorreu em 1937, quando o presidente do senado italiano e braço direito de Mussolini, Luigi Federzoni, veio ao Brasil em visita oficial. Lamberto Lippi, correspondente da edição 473 do jornal de colônia Il Moscone, antes da recepção alerta os conterrâneos:
No entanto, não é necessário exagerar. Tudo com muita diplomacia. Os jornais no país começam a alarmar-se com o "perigo fascista" e o "perigo nazista". Portanto, a reunião no Parque Antárctica em homenagem ao senador Federzoni deve ser feita com muito critério e sem exagero, lembremo-nos sempre de que estamos na casa dos outros. Caso contrário, os jornais mais nacionalistas de Getúlio gritarão: "O Brasil ainda é dos brasileiros!" (Tradução do autor).
Bom... O alerta não serviu de muita coisa. Aconteceu justamente o contrário e o evento reiniciou uma série de manifestações fascistas pela capital paulista.

Bertonha, 2001

E o que veio Federzoni proclamar para essa multidão de 50 mil pessoas no Estádio do Palestra Itália?

Il Moscone nº 475, 1937

Acredito que não era um discurso que caía muito bem a todos por aqui nestas terras brasileiras. É fato que as ideologias nazi-fascistas estavam em crescimento por todo o mundo, até mesmo nos Estados Unidos (Bertonha, 2001) e o auge desse expansionismo doutrinador se deu com os Jogos Olímpicos de Berlim, no ano anterior.

Nesse contexto, vista também a reação do governo brasileiro e a publicação dos decretos de nacionalização de 1938, acentua-se a situação dualista entre o ufanismo e protecionismo local contra o catecismo estrangeiro, que já era efervescente há mais dez anos: o jornal fascista Il Piccolo foi atacado por radicais opositores em 1928 (Ianni, 1963).

É natural que essa situação penetrasse também nos clubes esportivos, principalmente nos de colônia. O conde Matarazzo, que ajudou o Palestra a adquirir o Parque Antárctica, costumeiramente doava dinheiro a Benito Mussolini (Streapco, 2010).

Uma outra prova disso é uma carta em alemão datada de 17 de abril de 1940 (com a Guerra em andamento), emitida pela diretoria do Deutscher Sport Club e endereçada ao Cônsul-Geral da Alemanha no Brasil, o Dr. Walter Molly. O documento, que nada trata além da construção de uma inofensiva capela no Canindé, termina com uma saudação que me fez tremer até a ponta dos cabelos: "Heil Hitler". E existem outras cartas assim (com assuntos tão banais quanto).

Documento preservado no Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

No específico processo de nacionalização da Associação Alemã de Esportes, os associados não relacionados ao nazismo, que gostariam de manter-se ativos e usufruindo do clube que criaram, incentivaram seus convivas a nacionalizar totalmente a agremiação - afastando-se do idealismo pangermânico e, assim, também dos nacionais-socialistas.

O jornal Correio Paulistano, de 6 de fevereiro de 1942, aborda o procedimento:
Vai nacionalizar-se a Associação Alemã
Em virtude da Associação Alemã de Esportes ter solicitado sua nacionalização, o diretor da Diretoria de Esportes baixou, em data de ontem, a seguinte portaria:
"Portaria nº 3/42 - Tendo a Associação Alemã de Esportes requerido a esta Diretoria providencias necessárias à sua nacionalização, por tratar-se de sociedade estrangeira, esta Diretoria delegou poderes ao Sr. Nelson Fernandes no sentido de providenciar tudo o que for oportuno, de acordo com as leis em vigor e demais instruções expedidas que regulam o assunto, a fim de dar fiel cumprimento ao seu mandato para satisfação dos desejos da Sociedade requerente".
Em termo de um mês, Nelson Fernandes e clube do Canindé elaboraram as bases dessa nacionalização, que foi apresentada por eles ao São Paulo Futebol Clube e votada em Assembleia Geral Extraordinária pelos sócios da agremiação alemã no dia 13 de março de 1942 (curiosamente o mesmo dia em que a Società Sportiva Palestra Itália mudou o nome para Sociedade Esportiva Palestra de São Paulo) e pelo Conselho do Tricolor no dia 20 posterior.


Histórico de (con)fusões

Antes de avançar na história do Deutscher SC relacionada diretamente ao São Paulo, é preciso contextualizar um pouco mais o clube alemão e a situação pela qual passava desde o decreto getulista de 1938 e a mudança de nome que sofreu, por conta deste, em 1939 - E como, na realidade, o Tricolor foi verdadeiramente o fim dos problemas da agremiação.

A entidade não era a única associação de alemães da região que passou por esse processo de nacionalização. E, em verdade, se comparada com as demais, foi a que se saiu melhor na questão. O vizinho da Chácara Couto Magalhães, o Deutsch Turnerschaft von 1890, não foi bem sucedido nesse arranjo e causou muita dor de cabeça aos colegas conterrâneos.

Arte: Michael Serra / spfcpedia.com.br

Poucos sabem, mas a Turnerschaft também deteve uma sede esportiva ao lado do Corinthians, no Parque São Jorge, até abril de 1939 - mais à frente há de se voltar a este assunto. 

Em abril de 1938, por causa do decreto nº 383, o Turnerschaft, o Deutscher e o Donau, se uniram em uma nova entidade chamada Deutscher Sport-Club DTD (acrônimo dos nomes dos clubes envolvidos), proclamando-se, nos autos da lei, como uma sociedade alemã no Brasil. Tal convenção, em teoria, obrigava a exclusão dos brasileiros natos do quadro social - como esse processo poderia ser longo, nem sempre ocorria o desligamento.

Na realidade, apesar da fusão, o que se via na prática era os três clubes com autonomia, gerenciando os próprios bens, reuniões e quadros sociais. E mesmo frente aos órgãos públicos a situação não era diferente. Tanto que o Turnerschaft chegou a ficar oficialmente inativo, por ordem da secretaria de segurança pública, de 1º de agosto de 1938 até 31 de julho de 1939, sem que a decisão afetasse os outros dois envolvidos.


Aparentemente (com algum tempo de pesquisa futuro seria possível averiguar melhor o fato), a união não foi oficialmente registrada, ou judicialmente acertada, como deveria, havendo brechas legais para a discussão do fato.

Por conta desse período de inatividade e pela necessidade de deixarem participar de uma sociedade alemã, por lei, alguns sócios brasileiros deixaram o clube e, em 21 de março de 1939, fundaram a Associação Ginástico Esportiva, tomando sede à Rua São Bento, no centro, vindo a utilizar também o conjunto de ginástica da Turnerschaft, na Chácara Couto Magalhães e uma praça de esportes na Rua do Porto, no Canindé.

Tal recinto foi obtido em acordo com o Deutscher SC. A AGE, em verdade, foi uma forma encontrada para contornar o decreto getulista. Enquanto a Turnerschaft se mantinha como sociedade alemã, a AGE se declarava sociedade brasileira, mas os sócios de ambas as entidades, por acordo mútuo, tinham os mesmos direitos e deveres, bens, terrenos e tudo mais. Eram um clube só, mas não eram, por assim dizer.

Arte: Michael Serra / spfcpédia.com.br

Voltando à Turnerschaft. 

A separação da AGE do Turnerschaft von 1890 não foi a única e nem a mais grave que se sucedeu - de longe. Acusações entre sócios opositores que denunciavam mutuamente atividades políticas, proibidas (abertamente taxavam de nazistas uns aos outros), levaram à proclamação de duas diretorias e consequentemente à cissão do clube.

O ponto nevrálgico se deu com a decisão da Turnerschaft de sub-locar o terreno que detinha em frente ao Corinthians para outra agremiação: a Associação Atlética Guarany, em março de 1939 (o clube alemão fez um anúncio no jornal A Gazeta, no qual o Club Sul-América, Atlantic FBC, CA Banco de São Paulo e a Liga Húngara de Esportes também se mostraram interessados). 

Revoltada, a oposição entrou com processo questionando a legalidade do Deutscher DTD. No dia 1º de dezembro de 1939, o Ministério da Justiça deu ganho de causa aos descontentes (afirmando ser necessária assembleia geral para a definição do status do clube, se alemão ou se brasileiro) e suspendeu temporariamente as atividades da Turnerschaft (mas, curiosamente, não as do DTD). 

Desgostosos há muito tempo, no dia 21 de dezembro de 1939, o conjunto de sócios brasileiros remanescentes e opositores, crentes que a diretoria do clube alemão descumpria o decreto nº 383, convocaram uma assembleia (dita ilegal, agora pelos situacionistas) para se adequarem à lei. Dessa reunião nasceu a Sociedade Ginástica de 1890 - que considerava-se herdeira, ou melhor, a verdadeira Turnerschaft, desde então.

Começou uma batalha judicial por bens, dinheiro em bancos, direitos de uso de terrenos, etc... Documentos atestam que a sociedade original ficou oficialmente inativa ao menos até outubro de 1940 (com relatos de polícia na porta e tudo mais). O Correio Paulistano de 13 de dezembro indica o retorno das atividades com a convocação de assembleia geral. 

Toda forma, existe um "elo perdido" na história dessa agremiação. Sabe-se, que em 1945, ela surge na imprensa com o nome de Clube Ginástico Paulista (e existe, modestamente, até hoje). Em algum ponto entre 1940 e 1942, a entidade deixou a sociedade com o Deutscher SC, tendo se nacionalizado completamente (e muito provavelmente reincorporando a Sociedade Ginástica 1890 entre 1944 e 1945, ou o inverso). Sabe-se disso, pois, o patrimônio dela, na Rua Couto Magalhães, não foi assumido pelo Tricolor quando o São Paulo absorveu a Associação Alemã de Esportes.

Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

Quanto a pouco falada até aqui e terceira participante do DTD, a Österreichischer Verein Donau (clube de imigrantes austríacos fundado em 2 de dezembro de 1916 e habitante da margem norte do Rio Tietê, no que hoje é nomeado como bairro da Coroa), é conhecido o fato de ter-se nacionalizada com o nome Sociedade Donau; Danúbio, em alemão.

O destino do Donau parece ter sido, simplesmente, a incorporação total pela Associação Alemã de Esportes. O registro de dívidas da entidade junto à Companhia Antártica Paulista e a Cervejaria Brahma indicam que a AAE assumiu todo o ativo e passivo da entidade. Já sobre o terreno no bairro da Coroa: o Donau era apenas locatário.


A incorporação da Associação Alemã

Oficialmente, o Deutscher Sport Club tornou-se Associação Alemã de Esportes em 12 de julho de 1939, conforme visto na certidão emitida pela Diretoria da Justiça e do Interior, que autorizava o funcionamento do clube nos moldes do que era imposto no citado Decreto-Lei nº 383. Extra-oficialmente, desde abril de 1938, declarava-se Deutscher Sport Club DTD, em união já citada.

No processo de nacionalização de 1939, a Associação Alemã de Esportes se proclamou uma sociedade alemã. Depois, em 1942, decidiu tornar-se uma sociedade brasileira. A Ata da reunião extraordinária do Conselho Deliberativo do São Paulo Futebol Clube, de 20 de março de 1942 (que ratificou o que veio a seguir), registra como foi essa decisão ocorrida na AAE:
Aos 13 dias do mês de Março de 1942, na sede social da Associação Alemã de Esportes conforme convocação regular feita, realizou-se a Assembléia Geral Extraordinária a qual votaram 81 associados com direito a voto, representando número legal. 
A seção foi aberta as 21 horas pelo Sr. Nelson Fernandes, delegado da Diretoria de Esportes do Estado de São Paulo no Clube, que expôs os motivos da reunião dando a direção dos trabalhos ao Presidente e Secretário da Diretoria. Procedida por este a leitura da ata da sessão anterior realizada a 14 (quatorze) de janeiro de 1942, foi a mesma aprovada sendo a seguir lida a ordem do dia. 
Foi feita, então pelo Sr. Presidente uma exposição dos motivos da assembléia e foi explanada aos presentes as circunstâncias em que se viu colocada a associação logo após o rompimento das relações diplomáticas com os países do eixo, em virtude do que, solicitou a Diretoria de Esportes do Estado de São Paulo a nacionalização da Associação Alemã de Esportes, atendendo, assim ao desejo de uma grande maioria dos sócios consultados. Pedia pois a assembléia a aprovação dessa sua ata. Posto em votação foi o ato do Sr. Henrique Schenk aprovado por unanimidade.
Exposta a situação da Associação Alemã de Esportes foi decidido por unanimidade aprovar e dar como boas as contas apresentadas pela Diretoria e considerar cancelado o débito em conta corrente de 9:040$000 (nove contos e quarenta mil reis) da Sociedade Ginástica 1890, diante da afirmativa de Nelson Fernandes e do sr. Henrique Schenk, presidente, que a questão com a associação referida está encerrada. 
A seguir o Sr. Nelson Fernandes dá aos presentes esclarecimentos sobre como se poderia proceder a nacionalização da Associação: 1) Reformando os Estatutos visando essa nacionalização; 2) Por meio de uma incorporação por uma Entidade Brasileira.
Posta em discussão a matéria, falaram os Srs. Henrique Schenk, Curt W. Griebel, Fritz Ebeling, Max Frey e o Dr. Décio Pacheco Pedroso, presidente do São Paulo Futebol Clube, que foi convidado à ingressar no recinto. Suspensa a sessão por 15 minutos afim de que os sócios pudessem deliberar a respeito das propostas, foi ela reaberta tendo sido aprovado o segundo alvitre do Sr. Nelson Fernandes, que aliás, se relacionava com o entendimento prévio havido entre os presidentes da Associação Alemã de Esportes e do São Paulo Futebol Clube, obedecendo as seguintes condições:
1º Fica aprovada a incorporação da Associação Alemã de Esportes pelo São Paulo Futebol Clube, respeitando todas as prerrogativas estatutárias pertencentes aos sócios da Associação Alemã de Esportes; 
2º O São Paulo Futebol Clube se responsabiliza pelo ATIVO e PASSIVO da Associação Alemã de Esportes conforme exposição feita pelo seu presidente; 
3º Todas as instalações, haveres, e direitos dos dois Clubes passarão a pertencer unicamente ao incorporador, como responsável por todo o Ativo e Passivo.
Deliberou-se a seguir aprovar o balanço apresentado pela Tesouraria, tendo sido denunciado o saldo de 2:822$000, existente em caixa.
Antes de encerrar a sessão, o sr Nelson Fernandes congratulou-se com os presentes pelo feliz êxito dos entendimentos e agradeceu ao sr. Orval Cunha e os valiosos préstimos demonstrados durante a sua gestão como secretário e tesoureiro nomeado por ele. A seguir a Assembléia resolveu que se deveria transmitir a posse da presidência neste ato ao Dr. Décio Pacheco Pedroso, que recebendo-a do sr. Henrique Schenk, agradeceu a atenção dos presentes. Dada a palavra ao Sr. Henrique Schenk, em brilhante alocução relativa aos acontecimentos da noite, dirigiu-se ele aos consócios aos quais comunicou o interesse pelo sucesso esportivo demonstrados pelo sr. Capitão Sylvio de Magalhães Padinha a quem fazia votos de feliz viagem em virtude de sua próxima partida no dia 15 do corrente.

Clube de Fé, não de Estádio

Desde que o Tricolor foi reconstruído, em 16 de dezembro de 1935, os são-paulinos se dedicaram a encontrar um local onde o clube pudesse erguer o próprio estádio. Na realidade, já na segunda e na terceira reuniões do Conselho Deliberativo (26 e 28 daquele mês) foi colocado em pauta tratativas de fusão com o Clube Atlético Paulista, que detinha o uso do Campo da Rua da Moóca, de propriedade da Companhia Antárctica Paulista.

A primeira sede social do Tricolor pós-1935, na Praça Carlos Gomes: um porão alugado / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

Em 25 de novembro do ano seguinte, novamente a ideia foi posta em debate, agora com a participação do Clube Atlético Estudantes de São Paulo. Caso tudo desse certo, nasceria da união desses três times o São Paulo Olympico Clube, com direito de uso do Estádio da Moóca. O Estudantes não concordou com os termos e nada foi adiante.

Nas atas do Conselho Deliberativo existem referências de negociações por terreno datados a 11 de março, 1º de julho, 16 de setembro, 7 de outubro, 25 de novembro e 6 de dezembro de 1937 - ou seja, todas as reuniões realizadas naquele ano e mesmo com a criação de Comissão Pró-Estádio (sediada na Paróquia da Consolação, do Monsenhor Francisco Bastos), não houve avanço. O Clube chegou até a consultar o prefeito da cidade, Fábio Prado, sobre a possibilidade de cessão de terreno municipal, mas a prefeitura nada fez.  

O ano de 1938 começou mais promissor. Em janeiro, duas reuniões foram realizadas e nelas discutidas valores, contra-propostas e detalhes para a aquisição de um terreno no Bom Retiro (não especificado onde - ah como a história se perde porque o secretário que redige a ata não se apega a detalhes! -, mas, para quem não conhece, a região é próxima à antiga Chácara da Floresta). 

Se no Bom Retiro nada de bom realmente ocorreu, na Moóca o velho sonho enfim se realizou. Após negociações que duraram de junho a setembro, o São Paulo Futebol Clube incorporou o Clube Atlético Estudantes Paulista (junção do Clube Atlético Estudantes de São Paulo com o Clube Atlético Paulista) e passou a ser o mandatário do Campo da Companhia Antárctica Paulista. 

Passados alguns anos - e visto a grandiosidade do Estádio Municipal de São Paulo, inaugurado em 1940, o Tricolor percebeu que nada cresceria ali na Moóca, pois o terreno era da companhia de bebidas, que dele não queria se desfazer. 

Foi então, em fevereiro de 1942, que o srs. Nelson Fernandes, da DEESP, e Henrique Schenk, da AAE, bateram à porta do Tricolor. Na reunião do Conselho Deliberativo do dia 10 daquele mês foi concedido ao Dr. Décio Pacheco Pedroso o poder para tratar da união ou incorporação do clube alemão. 


O São Paulo do Canindé

Como dito, o Tricolor ratificou e aceitou a decisão da Associação Alemã de Esportes de ser incorporada pelo clube na reunião extraordinária do Conselho Deliberativo de 20 de março de 1942. Nos termos expedidos, o São Paulo passou, automaticamente, a ser o locatário do terreno do Canindé. Assim, o Tricolor voltou às margens do Tietê, tão bem conhecidas por ele nos anos 30.

Vista do Canindé a partir da Rua Pascoal Ranieri / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

A área de 70.568 m² que passou a fazer parte da história do clube pertencia à família Vannucci, como já dito, mas agora, especificamente, era posse do casal italiano Aladino (naturalizado em 24 de agosto de 1943) e Giuseppina Vannucci, conforme a declaração do Departamento de Estatística Territorial do Município de São Paulo e o inventário de Antônio Vannucci e Cesira Baccei (pais de Aladino, falecidos), registrado sob nº 24936, como também sob o nº 11.879 de 22 de agosto de 1935 do 6º Ofício de Órfãos, ambos na 3ª Circunscrição de Registro de Imóveis da Capital. 

No princípio, o Tricolor permaneceu como inquilino naquelas terras, mas desde o começo investiu em melhorias. Em pouco tempo o São Paulo já sediava no Canindé o departamento de futebol, como também reinaugurou o de natação e implantou outros que nunca antes possuiu, como o de remo, basquete, voleibol, hóquei e até mesmo xadrez. Foi um período verdadeiramente poliesportivo do clube, como jamais ocorreu novamente.

Quadras construídas pelo Tricolor / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

As principais modalidades amadoras, entretanto, eram o atletismo e o boxe (este esporte, porém, não utilizava o complexo do Canindé, mas a Academia Zumbano, de Kid Jofre). Comandados por Dietrich Gerner, treinador proveniente do CA Paulistano, e encabeçados pelo maior expoente, Adhemar Ferreira da Silva, os atletas são-paulinos foram pentacampeões da Taça Brasil e tetradecacampeões (isso mesmo, 14 vezes seguidas) estaduais de atletismo.

No dia 15 de janeiro de 1944, em reunião do Conselho Deliberativo, o São Paulo decidiu comprar o terreno do Canindé. Ao custo de Cr$ 740.000,00 (quase quatro vezes mais o valor do passe de Leônidas da Silva), sendo Cr$ 320.000,00 à vista, o Tricolor entrou em acordo com Aladino e Giuseppina Vannucci pela aquisição dos das terras.

Modo de pagamento do Canindé
Entrada: Cr$ 320.000,00
Depósito prévio da AAE (antigo sinal): Cr$ 20.000,00*
Parcelamento: 2 vezes de Cr$ 200.000,00 anuais
Valor acrescido por juros e hipoteca: Cr$ 140.000,00
Custo final quando quitado: Cr$ 880.000,00**

Planta da várzea do Canindé / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

*Em 17 de novembro de 1941, a Associação Alemã de Esportes tentou comprar o terreno dos Vannucci por Cr$ 550.000,00, tendo depositado um sinal no valor de Cr$ 20.000,00. A transação, todavia, não teve prosseguimento por causa do Decreto-Lei 4.166 de 1942, que vedava a alienação de imóveis de alemães, italianos e japoneses. Somente foi possível ao São Paulo adquirir o Canindé pois Aladino se naturalizou brasileiro em 1943. 

**Escritura de quitação do Quarto Ofício de Notas da Comarca da Capital datada de 12 de novembro de 1952.


A São Paulo que toma o Canindé 

Enquanto o Rolo Compressor são-paulino reinava no Pacaembu, então maior estádio do Brasil, nos anos 40, o Canindé se mostrava à coletividade tricolor como sendo nada mais que um recanto aprazível (embora de acesso extremamente difícil - por vezes era preciso utilizar canoas mesmo) para o treinamento de atletas, profissionais e amadores. Apesar de bem estruturado - o complexo abrigou até a seleção campeã da Copa do Mundo realizada no Brasil, o Uruguai.

O local era, de fato, pequeno para as pretensões dos dirigentes e da crescente torcida são-paulina (compare os rankings de sócios de 1942 e 1945).

A seleção do Uruguai treinando no Canindé / Varela & Bednarik, 2014

E ficaria ainda menor com a retificação do Rio Tietê, imposta por vislumbres de progresso do engenheiro e prefeito Francisco Prestes Maia (e posteriores), mas também por questões sanitárias. Com esse projeto, já bem antigo e que contava também com a construção das avenidas marginais, o São Paulo perderia boa parte da área que possuía no Canindé. 

Por isso mesmo, em março de 1948, o Tricolor propôs uma permuta com a municipalidade por um terreno na região do Ibirapuera - Não me alongarei, essa história (e a busca por terrenos antes da aquisição do Morumbi) fica para outra oportunidade, mas isso não ocorreu. 

Em 1950, o poder público forçou a desapropriação de 26.168 m² (número totalizado) da propriedade do São Paulo para a pavimentação da estrada marginal, indenizando o clube com a quantia absurdamente ridícula de Cr$ 1,00 por todo o terreno! O Tricolor avaliava, para tal, o valor a Cr$ 300,00 o metro quadrado, e questionou na justiça. Só em 1958 saiu o parecer final e a Prefeitura teve que desembolsar Cr$ 7.000.000,00 de indenização, mas não para o Mais Querido (ver abaixo o porquê)...

Assim, com apenas 44.400 m², o Canindé tornou-se, de uma vez, inviável para se erguer um grande estádio. Em 9 de dezembro de 1953, então, o Conselho Deliberativo do clube aprovou a venda do terreno à possíveis interessados. Somente no dia 11 de fevereiro de 1955, os senhores Wadi, Eduardo e Raul Saddi lavraram a ata de compra da propriedade ao valor de Cr$ 11.922.795,50.

À esquerda, a Chácara da Floresta, à direita, o Canindé, em 1958 / Geoportal 

O São Paulo, porém, sofreu um prejuízo inesperado. Devido as obras municipais que alteraram a geografia das posses tricolores, a metragem oficial da área caiu para 42.350 m². Sem essa faixa de terra, os são-paulinos deixaram de adquirir mais de 500 mil cruzeiros na transação (conforme folhas 21v do Livro de Notas nº 702 do 4º Tabelião de Notas da Comarca da Capital). 

Forma de pagamento:
Cr$ 6.893.819,70 pagos ao São Paulo antecipadamente;
Cr$ 4.606.180,30 diretamente a Caixa Econômica de S. Paulo para liquidação de débito hipotecário;
Cr$ 422.795,50 ao São Paulo ao lavrar-se o acordo.

Como o comprador, o sr. Wadi, também era sócio do clube, o São Paulo pôde permanecer no Canindé mais algum tempo, enquanto as obras no Morumbi avançavam. Somente quando o proprietário vendeu o terreno à Portuguesa, em 1956, o Tricolor deixou de ser, de vez, o Tricolor do Canindé.

Planta detalhada da sede do Canindé / Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube


Lendas e calúnias

Nos dias de hoje, causa estranheza as mentiras acerca da relação do São Paulo com o Canindé e com a incorporada Associação Alemã. Aliás, não somente sobre isso. Por conta da Guerra e do processo de nacionalização de equipes de colônias de imigrantes, também sobre estórias de pretensas tentativas de influenciar o destino do Palestra Itália, atual Palmeiras, ou ainda sobre as propriedades deste.

De cara, é preciso enfatizar que nenhuma fonte, primária ou secundária, que tenha caráter documental e que seja de época, conforme muitos dos documentos aqui abordados ou ilustrados, desabona qualquer conduta ética ou moral por parte do Tricolor. Na verdade, o contrário:
“Devemos, ainda, assinalar, aqui, outra grande injustiça que corre mundo pela boca dos palpiteiros e dos inimigos do tricolor atribuindo ao clube mais querido da cidade a onda que se levantou contra o alviverde do Parque Antárctica. Para os apologistas da confusão e das mentiras, o S. Paulo pretendia estabelecer o desânimo nas hostes esmeraldinas e ganhar assim o campeonato! Não há mentira maior! Em primeiro lugar, o S. Paulo F. C. não sabe o que seja lançar mãos de recursos estranhos ou de golpes baixos para ganhar em campo quando é certo que grande, muito grande, ele tem sido na vitória ou na derrota... O jogo do dia 20 será decidido apenas no gramado e tudo que se disser fora daí é – intriga da oposição.” (José de Moura, "Intrigas da oposição". A Gazeta Esportiva, 18/09/1942 - Streapco, 2010).
Entrevistas de personagens parciais cedidas décadas depois e enviesadas pelo tempo não são de muito crédito - me refiro tanto a Oberdan Catani, exemplarmente, como também a conversas que conduzi com pessoas da época, como Manoel Raymundo Paes de Almeida, o qual me recordo até hoje estranhando o questionamento (perguntei sobre animosidades entre o São Paulo e outras agremiações), rindo e dizendo que os dirigentes envolvidos nas lendas eram amigos, daqueles de jantarem um na casa do outro.

Outros eventos ao longo do tempo demonstram o mesmo comportamento. Exemplos de cordialidade (institucional ou não) encontradas entre ambas as associações não faltam. Havia até mesmo dirigentes com parentes também no seio dos rivais. O caso mais expoente é o da família Pompeu de Toledo (presentes no Santos - Simas - e no Palmeiras - Brício).

Homenagem palmeirense ao São Paulo / Foto de Eduardo e Raul Simone Pereira

Em 1938, o São Paulo havia adquirido, mediante união com o Estudantes - um clube que praticamente nascera do próprio Tricolor, o direito de uso do Estádio da Rua da Moóca. Em 1940, assegurou o direito de preferência de uso do Estádio Municipal recém-inaugurado destinando 10% da renda de cada um de seus jogos lá realizados ao poder público. Em 1942, como neste artigo descrito, passou a ter um bom centro de treinamento e sede campestre, que comprou com recursos próprios dois anos mais tarde. Época em que o time passeava nos gramados, com Leônidas chefiando o Rolo Compressor, rei daquela década no futebol paulista. 

Logo, para quê o clube supostamente tentaria obter o patrimônio de terceiros? Sejam eles grandes ou pequenos... Relembro que a Associação Alemã de Esportes foi incorporada antes da declaração de guerra ao Eixo e que somente após negociação que partiu de integrantes daquela entidade e aprovada entre eles por unanimidade.

Acusar o São Paulo de envolvimento suspeito no processo de incorporação da AAE e do Canindé, ou de qualquer fato escuso, sem provas, seria o mesmo que acusar o Palestra Itália de benefício ilícito quando adquiriram o Parque Antárctica, em 1920.


Olhar-se no espelho

Até o avanço da Primeira Guerra Mundial, os campos localizados no Parque Antárctica, como o nome bem diz, eram de propriedade da Companhia Antárctica Paulista e ao menos um era utilizado, sob contrato de locação, pelo Sport Club Germânia desde o início do século (o último contrato, todavia, era datado de 1916, válido até 1921 e abrangia os dois gramados). O envolvimento alemão naquele conflito forçou o rompimento unilateral do acordo em 1919, o despejo dos germânicos para o Rio Pinheiros, e abriu as portas para a entrada dos palestrinos

Ainda sobre o Palestra Itália e o Parque Antárctica (que, aliás, o Tricolor também ajudou a construir e que possuía capacidade de público inferior a do Pacaembu - novamente a questão: para quê?)... Certamente essa lenda é mais um caso de auto-afirmação e propaganda por parte deles (uma entidade que precisava demais disso, socialmente desfigurada interna e externamente depois de padecer sob jugo das leis impostas pela ditadura de Getúlio Vargas - como centenas de outras equipes), do que qualquer outra coisa.

Esquecem-se (se é que sabem) que o São Paulo também foi alvo do processo de nacionalização imposto pelos decretos-lei do Estado Novo. Pressionado, a diretoria do Tricolor se viu obrigada a aprovar, em 1º de setembro de 1942, a interrupção dos direitos e deveres de associados italianos e alemães que fossem assim solicitados pelas autoridades competentes (O Estado de S. Paulo, 2 de setembro), tal como se sucedeu com times de imigrantes. A desobediência às normas de nacionalização poderia levar ao fechamento dos clubes: e muitos foram fechados pelo Brasil.

É fato também que grandes veículos de comunicação da época pertenceram a ilustres são-paulinos, como a Rádio Record e a Pan-Americana, de Paulo Machado de Carvalho, ou ainda o periódico O Estado de S. Paulo, sob intervenção federal, mas de propriedade dos Mesquita. E que a cobertura midiática da guerra, certamente, não era nada favorável aos países do Eixo e que muitos ânimos podem ter sido inflamados por causa dela.

Todavia, o país de modo geral passava por um momento de ufanismo e nacionalismo exacerbado (que ameaçou até mesmo as unidades federais - as bandeiras estaduais foram queimadas em praça pública e proibidas em 10 de novembro de 1937), fruto da época e do governo Getúlio Vargas.

Bertonha, 2001.

Vale lembrar os mais de 600 cidadãos brasileiros que morreram em atentados germânicos quando o país ainda era um elemento neutro! Não era preciso muito para tal exaltação. Principalmente pelo fato de ser recente na memória da população as festividades e comemorações ostensivas pela cidade e ofertadas por agremiações de colônia à fascistas e nazistas declarados - vide caso, acima apresentado, de Luigi Federzoni.

No processo de nacionalização dessas entidades, é notório, os nazi-fascistas foram eliminados dos quadros sociais (ao menos, muitos deles). Contudo, imagino que o sentimento público não tenha se dissipado meramente por essa atitude. O vínculo entre os clubes e a doutrina, creio, estava enraizado na mente da população. Não era necessário reforçar a associação de uma coisa com a outra, visto que, o Palestra Itália se mostrava desta forma até pouco tempo antes, por exemplo, não tendo jogadores negros até Og Moreira, justamente em 1942 - Ao contrário do Tricolor, multirracial desde a primeira partida da história do time.
Era, porém, bastante significativo que o Palestra Itália só tivesse botado um preto no time depois de Pearl Harbour. Nao podia haver duvida que o Brasil, mais dia menos dia, ia entrar na guerra contra as potências do Eixo, uma delas a Itália. E o que explica a pressa da contratação de Og Moreira, preto de cabelo esticado, ja careca. Antes ninguém reparara nos times sempre brancos do Palestra. Talvez porque não eram tao brancos. Ou eram brancos à maneira brasileira. E um pouco, quem sabe, à italiana, com os descendentes dos seus ‘Otelos’ e suas ‘Desdêmonas’. Pearl Harbour, assim, apressava o abrasileiramento do Palestra, ainda muito italiano. Fazendo, inclusive, questão de ser italiano. Como se isto o enobrecesse. [...] Tudo isto, depois de Pearl Harbour, colocava o Palestra Itália numa delicada. O que passara despercebido até então, o racismo emigrado do clube do Parque Antárctica, se não corrigido a tempo, apareceria como uma mancha capaz de deixar uma pecha de quinta-colunismo, não ao clube, mas aos que o dirigiam" (Rodrigues Filho, 1947).
Por fim, a imprensa nada tinha a ver com o São Paulo e o São Paulo nada a ver com a imprensa. Da mesma forma que o clube não responde por nenhuma atitude desaprovável e individual de torcedor algum que porventura possa ter ocorrido ou não (eis o absurdo de tantas conjecturas!) - e que mesmo assim não teria peso nenhum justamente por isso.


A injustiça da falta de historicidade

O mais grave de tudo isso é a perpetuação de impropérios às entidades sem que nenhuma pesquisa historiográfica mínima justifique sequer o questionamento. Eis o risco de lendas virarem "fatos". Agora mesmo, caso se procure na Wikipédia, por exemplo, a relação do São Paulo com o Canindé ou a Associação Alemã, muito provavelmente encontrar-se-á alguma passagem afirmando que o time germânico mudou de nome para Guarani e foi incorporado pelo Tricolor por medo de qualquer coisa - e claro, sem nenhuma fonte.

Primeiramente: A AAE (nem o São Paulo) nunca teve nada a ver com a Associação Atlética Guarany e muito menos a AA Guarany com o Canindé. A história desse clube remete a outro grande da capital paulista e à outras agremiações alemãs, não ao São Paulo.  

Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

A AA Guarany, apesar de pequena, era uma valorosa agremiação. Focada no atletismo de rua (afinal, não é necessário muito dinheiro para manter essa atividade em vias públicas), formou dois atletas vencedores da tradicional Corrida de São Silvestre (Armando Martins, em 1938, e Antônio Alves, em 1940).

A entidade foi a sucessora (na realidade, inquilina) da Deutsch Turnerschaft 1890 como usuária do terreno alugado da Rua São Jorge, sede campestre do clube nos anos 40. Assim, era vizinha contígua do Sport Club Corinthians Paulista no Parque São Jorge. 

Uma carta datada de 2 de outubro de 1940, endereçada a dirigentes da Associação Alemã de Esportes, revela o medo da AA Guarany de ser desalojada devido a postura violenta - palavra dita pela própria entidade -, do vizinho, um clube muito maior que o pequenino bugre.

Diz o documento:
"Havendo o SC Corinthians Paulista, clube profissional, fronteiriço a nós, firmado um contrato de compromisso de compra, referente ao terreno onde estamos instalados há 18 meses, e onde, a custa de sacrifícios de toda a ordem, tudo temos feito pelo esporte amador, procurando elevar cada vez mais alto o nome esportivo dessa Associação - nos vemos, agora, na dolorosa contingência de ter que abandonar tal local para o qual ingressamos com 64 associados apenas.
O surto de progresso, nosso, parece-nos, projetou uma sombra a aquele clube, motivo porque, embora não necessitasse do terreno em questão, apressou-se a entrar em entendimentos com o proprietário para a sua aquisição, no curto prazo de 15 dias, não medindo consequências desastrosas que nos acarretará tal atitude anti-esportiva e violenta, condenada até mesmo por seus próprios associados, mormente porque o seu estádio ainda não está pago e o seu terreno comporta, sobejamente, as construções que dizem pretender fazer. 
Pedindo a opinião sincera desse congenere, se aprova ou não esse gesto do clube profissional que procura dar um golpe de morte a um clube essencialmente amador, é o que vimos fazer, após a explanação acima".
Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

Ao que tudo indica, no fim das contas, ao cabo de alguns anos, a AA Guarani desapareceu, de acordo com autor de "Tietê: o Rio do Esporte", incorporada pelo Corinthians - e, pelas aparências, talvez não muito por vontade própria:
"A Turnerschaft desistiu da locação do imóvel e o espaço liberado foi ocupado pela AA Guarani, clube que por algum tempo viveu ao lado do Corinthians, até que o alvinegro viesse a absorvê-lo. Grande parte dessa área é ocupada hoje pelas marginais do Tietê" (Nicolini, 2001). 
Sabe-se, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo (5 de maio de 1946), que a AA Guarany, sublocatária, entrou com processo contra a Sociedade Ginástica 1890 (locatária sucessora) por causa da perda desse terreno para o Corinthians.

É de se reparar facilmente a diferença de toda a operação de incorporação da Associação Alemã de Esportes do que ocorreu com a Associação Atlética Guarany.

Por essas e outras, depois de tudo aqui dito, explicado e contextualizado, é muito bom olhar primeiro para os obstáculos na frente de si mesmo, que se ater ao ciscos nos olhos dos outros.


Herança

 
 
Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

Até hoje, não havia uma linha escrita sobre a história da Associação Alemã de Esportes que houvesse sido pesquisada e apurada em documentos originais da própria entidade. Quase o mesmo pode ser dito da relação do Tricolor com o Canindé. Mas o São Paulo Futebol Clube sempre prezou e preservou os materiais referentes a ambos.

Boa parte do conteúdo ilustrado neste artigo se encontra no Arquivo Histórico do clube, em meio a muitos e muitos outros - dois quais, grande parte são em língua alemã. Graças a isso, foi possível resgatar a história de clubes relacionados há muito esquecidos (nos poucos trabalhos existentes sobre clubes de imigrantes, praticamente nada existe sobre as entidades aqui mostradas).

A própria árvore genealógica do São Paulo foi expandida com esse conhecimento hibernado.

Dizem os juristas, por essas bandas, que todos são inocentes até que se prove o contrário. Por tais documentos salvos, até pode-se deixar de lado essa prerrogativa. Afinal, atestada está a idoneidade - tanto faz se acusam ou não.

Além de documentação em papel, o Memorial Luiz Cássio dos Santos Werneck, no Morumbi, guarda na reserva técnica inúmeros troféus conquistados pelas agremiações aqui descritas. Como o decorrer do tempo é o maior dos inimigos, muitas dessas memorabílias sofreram agruras que impossibilitam a identificação - mas esse processo não pára e tentar não custa. (Em um texto já preparado, agendado, em breve a relação das taças conhecidas será publicada).

Mas, além de registros e de metal, a principal herança, tanto da AAE, quanto do Canindé, para o Tricolor é a memória esportiva dos feitos daqueles que viveram a época com a camisa são-paulina, ostentando-a nos mais variados esportes e ajudando a marcar o nome São Paulo Futebol Clube nos mais profundos recantos da história e a transformá-lo no que ele é hoje.

Deixaram, assim, os próprios nomes também para a posteridade.

Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube


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Fontes:

A GAZETA. Biblioteca Nacional Digital. Disponível em <http://memoria.bn.br>.
ARAKAN. Edições nº 15, 16 e 18: Julho, Agosto e Outubro de 1944. São Paulo, 1944.
BERTONHA, João Fábio. O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil. Porto Alegre: Edipucrs, 2001.
CORREIO DE S. PAULO. Biblioteca Nacional Digital. Disponível em <http://memoria.bn.br>.
CORREIO PAULISTANO. Biblioteca Nacional Digital. Disponível em <http://memoria.bn.br>.
FOLHA DE S. PAULO. Acervo Folha. Disponível em <http://acervo.folha.uol.com.br>.
GEOPORTAL. Site da internet atualmente fora do ar. Acessado em 2008.
GUEDES, Cláudia Maria, et al. Clubes de imigrantes em São Paulo, in Atlas do Esporte no Brasil . Rio de Janeiro: Confep, 2006. Disponível em <http://www.atlasesportebrasil.org.br>.
IL MOSCONE. Biblioteca Nacional Digital. Edições 473 e 475. Disponível em <http://memoria.bn.br>.
MAZZONI, Thomaz. Almanaque Esportivo 1942/1945. São Paulo, 1942/1945. 
NICOLINI, Henrique. Tietê: o rio do esporte. São Paulo: Phorte Editora, 2001.
O ESTADO DE S. PAULO. Acervo Estadão. Disponível em <http://acervo.estadao.com.br>.
PORTAL DA CÂMARA. Câmara dos Deputados. Disponível em <http://www2.camara.leg.br>.
PORTAL DA LEGISLAÇÃO. Palácio do Planalto. Disponível em <http://www4.planalto.gov.br>.
RODRIGUES FILHO, Mario. O negro no football brasileiro. Irmãos Pongetti: Rio de Janeiro, 1947
SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE. Arquivo Histórico do São Paulo FC. São Paulo, 2017.
SÃO PAULO FUTEBOL CLUBE. Site Oficial do São Paulo FC. Disponível em <http://www.saopaulofc.net>
STREAPCO, João Paulo França. Cego é aquele que só vê a bola. São Paulo: FFLCH, 2010.
VARELA, Andrés & BEDNARIK, Sebastián. Maracaná. 2014. NTSC, 75min. color. som. 

Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube

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